Despejo

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Assim como se descobrem as nuvens

tenras do tempo passado

Descobrem imensas e destruidoras

as iras de um ser esquecido

do profundo clamam forças

dos calabouços da discórdia

o tempo abre as cortinas

e o ódio, sim o ódio

desprezado pelos séculos

agora toma conta de mim

não sou rei nem senhor

nem grito quando vejo as estrelas

nem choro quando contemplo

rosas tristes no jardim de minha casa

mas cultivo no vazio

a vontade de destruir os fracos

de pisar os tristes

de encobrir a luz

de criar um reino de

fortes, de criar um reino

de pessoas que não se

importam com seus cortes

Assim piso as estrelas de meus pensamentos

como se pisasse as cabeças de meus amigos

e ouço o som de seus ossos quebrando

e bebo o sangue de seus lamentos

e canto o bolero de suas noites acordado

e jogo o dado de minhas forças e mato

as forças do meu tempo

não tenho piedade, nem das rosas

nem das nuvens, nem do sol

nem das plantas, nem dos homens

fadigados pelas dores existênciais

Sou o anuncio dos versos antigos

recitados pelos animas ferozes

com os dentes lambuzados de sangue

Não tenho dia nem hora

não espero a hora propicia

tenho em mim a força que faz o mundo mover-se

e o sol estranhamente nascer todos os dias

e das sementes estranhamente vencerem a força da terra

e de nós estranhamente continuarmos a viver

não tenho medo, tenho vontade

tenho desejo, e quero sem demora

satisfaze-lo e colocar todos aos meus pés.

Luiz Vieira

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