O Mundo como vontade e como Representação
Schopenhauer parte em sua filosofia, como afirma BARBOZA (2001) da representação como primeiro fato da consciência. Afirma: “O mundo é minha representação” (SCHOPENHAUER, 2005. pág.43) nas primeiras páginas de sua principal obra. Considera que o mundo inteiro é um objeto em relação a um sujeito, ou seja, intuição de quem intui, portanto representação. Não se conhece nada no mundo, nem sol, nem nuvens, nem pessoas, nem arvores, mas somente um olho que vê tudo isso.
O sujeito será para o autor o sustentáculo do mundo como representação, pois será a condição do objeto. Sem um ser para perceber o mundo ele cessa de existir. O mundo como representação, para Schopenhauer terá duas partes essenciais e necessárias: o objeto sob a forma de espaço e tempo e mediante estes a pluralidade. E o sujeito que não se encontra nem no espaço nem no tempo e se encontra inteiro e indiviso em cada ser que representa. (SCHOPENHAUER, 2005). O corpo também será considerado objeto, porque está submetido às leis dos objetos: espaço e tempo, mediante este a pluralidade. Todo o conhecimento que temos se dá pelo principio da razão (representação). Conclui o autor como Heráclito, Platão, Espinosa e Kant que tudo que se encontra no espaço e no tempo, que se resulta de causas e motivos possui apenas existência relativa. Compara a teoria isso, a expressão indiana denominada Véu de Maia que seria o véu de ilusão e sonho que envolve todos os mortais. A vida, portanto, será o mundo da representação submetido ao princípio da razão.
Sendo por um lado inteiramente representação, o mundo por outro é inteiramente Vontade. Esta
“é a única coisa que o mundo revela para além da representação, ou seja, a coisa-em-si. Em conformidade com isso, nomeamos o mundo como representação, tanto em seu todo quanto em suas partes, OBJETIVIDADE DA VONTADE, ou seja, Vontade que se tornou objeto, isto é tornou-se representação.” (SCHOPENHAUER, 2005, pág.235)
Afirma Schopenhauer que nenhuma das ciências não chegou nem pode chegar a resultados satisfatórios, já que estas estudam apenas as representações, descrevendo-as, comparando-as e analisando-as, podendo tirar delas apenas suas aparências fenomênicas. Conhecendo apenas as formas permanentes das coisas, ou a mudanças das coisas segundo suas leis de transição. De maneira alguma podem saber o porquê verdadeiro das coisas, o Em-si do mundo. A força se exteriorizando no mundo, a essência intima de todos os fenômenos que aparecem conforme leis permanece para nós um grande mistério, algo completamente desconhecido.
Essa essência do mundo, a coisa-em-si é denominada por Schopenhauer como VONTADE. O sujeito que entra no mundo mediante sua identidade com o corpo, é dado de duas maneiras distintas: uma vez como representação na intuição do entendimento, como objeto entre objetos e submetidos as leis do tempo, do espaço e da causalidade; outra vez de maneira completamente outra, a saber, como aquilo conhecido imediatamente por cada um e indicado pela palavra VONTADE. (SCHOPENHAUER, 2005)
“Todo ato verdadeiro da vontade é simultânea e inevitavelmente também um movimento do seu corpo. Ele não pode realmente queres o ato sem ao mesmo tempo perceber que este aparece como movimento corporal. (…) A ação do corpo nada mais é senão o ato da vontade objetivado, isto é, que apareceu na intuição.” (SCHOPENHAUER, 2005, pag. 157)
Essa Vontade seria a essência do universo, irracional e una, que não quer nada senão viver e para isso cria os instrumentos capazes para tanto. O conhecimento (intuitivo ou racional) em ação na vida prática e na ciência, o qual está submetido ao principio da razão, nada mais é do que um instrumento a serviço da vida, um mêkhanê indispensável à conservação do indivíduo e a propagação da espécie (LACOSTE, 1986). Schopenhauer então irá por outro caminho e considerará o corpo agora como objetividade e traduzirá todo conhecimento real das coisas em Vontade. E ainda dirá que todo ato da Vontade e toda a ação corporal são a mesma coisa sob duas maneiras distintas: numa, imediatamente sentido; noutra intuição do entendimento (SCHOPENHAUER, 2005). Schopenhauer tenta chegar ao Em-si das coisas não mais de fora pra dentro diferentemente dos outros que o precederam. Isso acarretará no ponto marcante de sua filosofia: o primado da Vontade sobre o intelecto.
A vontade que, considerada puramente em si, destituída de conhecimento, é apenas um ímpeto cego e irresistível – como a vemos aparecer na natureza orgânica e na natureza vegetal, assim como na parte vegetativa de nossa própria vida – atinge, pela entrada em cena do mundo como representação desenvolvida para o seu serviço, o conhecimento de sua volição e daquilo que ela é e quer, a saber, nada senão este mundo, a vida, justamente como ela existe. (…) Como a vontade é a coisa-em-si, o conteúdo intimo, o essencial do mundo, e a vida, o mundo visível, o fenômeno, é seu espelho; segue-se daí que este mundo acompanhará a Vontade tão inseparavelmente quanto a sombra acompanha o corpo. (Schopenhauer, 2005, p.357-358)